quarta-feira, 7 de agosto de 2013

"Perder-se também é caminho" Lispector









Essa história de só dar valor depois que perde é muito relativo. E quando você se perde? E quando você se olha e não se enxerga?

É fácil usar a roupa certa e caprichar na maquiagem, quando dentro de você tudo se encontra irreconhecível. E quando suas atitudes não condizem com o que você acredita? É difícil aceitar que se perdeu, mas é corajoso retomar o caminho de volta pra se reencontrar. 

A gente se perde aos pouquinhos, se afastando de amizades verdadeiras, de amores eternos, de abraço de mãe, de carinho  de gente que te conhece de verdade. E quando faz o caminho de volta, percebe que seu cantinho estava guardado na vida de cada um, que os braços continuavam estendidos, o colo pronto, o riso fácil e a casa segura. 

A gente se perde pra se encontrar maior, mais inteiro, mais completo. A gente se perde pra descobrir que, o que é verdadeiramente nosso está nos esperando.


Renata Fagundes








terça-feira, 25 de junho de 2013

Tempo que chega






Chega um tempo em que você não se preocupa com o tempo. Se lembra apenas que esqueceu a ansiedade pelo caminho, que deixou de berrar pra provar que esta com a razão, que desistiu de esperar demais das pessoas, pois descobriu que pessoas oferecem o que são. Aprende a sorrir dos que subestimam sua inteligência. Desaprende de se justificar porque sabe que quem te ama, te entende, te aceita e te quer por perto apesar de você ser quem é. 

Chega um tempo em que você prefere estudar (viver) humanas que exatas, pois descobre que coração não entende de exatidão.

Chega um tempo em que você para de olhar, aprende a enxergar. Para de correr, aprende a caminhar. Para de gritar, aprende a assoviar.

Chega um tempo em que você deixa as expectativas de futuro para os mais apressados e prefere descansar nos braços do agora. Se despede de todos os ontens, pois sabe que sua história mais interessante será escrita hoje.

Chega um tempo em que você joga a palavra felicidade no google e não encontra nada, pois ela esta dormindo ao seu lado, esta no telefone com suas vozes infantis preferidas, esta no abraço grande do seu irmão, esta na resposta da sua oração. 

Chego a me perguntar se me perdi no tempo, pois não reconheço a garota de anos atrás, a mulher de um dia desses. Talvez tenha chegado atrasada no encontro que marquei com o tempo. Confesso que não me decepcionei ao olhar nos olhos da mulher diante do espelho, uma mulher que ainda não desvendei. Mas  ela não assusta, pois estou prestes a descobrir.



 Renata Fagundes





quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Constante inconstância








"...ele sempre dizia - meu maior medo é perder a lucidez. Ela, que nada tinha de lúcida ouvia sua teoria de folhetim, palavras requentadas, experiencias que outros viveram para que ele se poupasse do trabalho. 

Descalça, entrou no sótão da alma com cuidado para não acordar lembranças adormecidas. Era incrível como a tal lucidez nunca a havia visitado. Apesar do pó do tempo, era possível sentir a intensidade dos momentos, ainda se identificava a vivacidade das cores, o som dos sorrisos em fotos amareladas, o perfume de lugares e pessoas. Se viu ali, em pedaços, papel repicado colorindo o chão da memória, cantiga de roda, vinil colorido, histórias inacabadas. Não era exemplo a ser seguido. Era caminho, estrada, poeira de chão que o vento leva pra dançar em territórios distantes, era sorriso de gente estranha, lágrima quente que faz morada na boca, braços dançarinos e abraço de pernas. Concluiu que, mais que palavras bem colocadas, era feita de pedaços de loucura que ainda eram degustados..."




"A alegria é um vento que nos levanta do piso e nos deixa em outra parte,  em um lugar em desaviso."
(Emile Dickson)



Renata Fagundes

Trecho do texto: Desatino







quinta-feira, 21 de junho de 2012

Muros de papel






Com dias programados, se desprogramou de grandes expectativas. Não atendia aos telefonemas do inesperado. Se tornou estrada com placas demarcando limites. Quando sentimentos desavisados resolviam fazer "canturia" nas janelas do seu coração, de imediato passava a tranca no sótão dos sonhos e dormia embalada pelo silêncio da noite. Mesmo com todo esse cuidado, em um piscar de olhos foi sequestrada por um sorriso, sua armadura queimada por palavras docemente firmes. Bastou um pequeno gesto e todos os muros, toda a segurança havia caído. Se tornou uma sem teto, com pés descalços, sorriso fácil, refém nos braços da poesia.


Renata Fagundes








quinta-feira, 17 de maio de 2012

Maternidade poética






Escrever não é espalhar qualquer coisa em uma tela em branco. Escrever é uma gestação. É ser mãe de palavras.

Você sente cada letra, cuida delas, conversa com elas enquanto tomam forma. Imagina o resultado final. Acaricia cada sílaba, enfeita de cores, as veste conforme a ocasião. Não importa se de primeira viagem ou veteranas, somos mães e cuidamos dos nossos filhos. E que ninguém ouse mexer com um deles. Somos valentes em defender, com a mesma intensidade que somos generosas em dividir, em deixar nossos filhos passearem na casa dos amigos, mas como toda boa mãe, precisamos ser avisadas onde estão. Não permitimos que sejam raptados, molestados, largados de qualquer maneira em qualquer lugar. Porque são pedaço nosso, saíram de nós. E mesmo que ganhem o mundo, somos sua morada.


Renata Fagundes

Texto contra o Crime do Plágio.










quarta-feira, 9 de maio de 2012

De homem pra homem




"Eu não sou bom em dar conselhos. Você quer um comentário sarcástico?"
(Friends)




Isso é só um falatório entre amigos que merece ser registrado.

Mulher adora dizer que homem é tudo igual, mas existem jóias raras escondidas por aí. E como boa garimpeira de gente, tive o privilégio de recolher verdadeiras preciosidades desses homens incríveis. 


Numa dessas reuniões, de muita conversa e lembranças da infância, a inspiração resolveu sentar na roda e anotar tudo. Resumo da obra...


- Ainda não entendi o por quê da sua separação Miguel.
- "Excesso. Excesso de amor, de ciúmes, de pavor de perder. Excesso dela em mim. Senti minha falta Rê."

- Acho que pela primeira vez, o coração gritou mais alto que o Rafa gente...
- "É engraçado, sou apaixonado pelo que ela acha que não vejo. Quando ela tira o cabelo do rosto pra escrever, faz aquela bagunça deixando pedaços seus pela casa. Passei a acreditar em Deus quando comecei a agradecer por ela amanhecer ao meu lado."

Murilo falando - "Não gosto de mulher que olha a bunda no vidro do carro, nem as estilo" spider man", que parecem ter um batom pregado no pulso e passa aquele troço toda hora, é cabelo que não pode molhar, salto que não pode tirar. Parecem manequins que escaparam da vitrine. Eu gosto é de ver como passam hidratante nas pernas, de ver um coque mal feito deixando fios de cabelo enfeitando a nuca. Mulher é macia, é brilhante, gosto de sentir o cheiro, mulher foi feita pra ser tocada, as outras são apenas cabides."

Mumu, pára de falar bobagem e vai fazer um chá...kkkkkk



Renata Fagundes - Diálogos Insanos [na real]








terça-feira, 24 de abril de 2012

Dona moça








...percebeu o cabelo dançar na frente dos olhos, como se quisesse chamar sua atenção dizendo:

Acorda dona moça, a vida passa lá fora e você fica aí olhando pra dentro, fechada no nada. Flores precisam ser coloridas, sorrisos precisam ser enfeitados, estrelas estão amontoadas num canto esperando para iluminar os beirais das janelas. Hoje, uma borboleta comentou que você esqueceu sua aquarela na esquina da praça e crianças travessas andaram brincando de pintar vidraças, achando que eram cores sem dono, sem casa. O que foi que você perdeu, que de tão distante seus olhos não veem mais nada? O que encontrou pelo caminho que a fez descolorir e cansar de sorrir? Quero pintar um coração vermelho em sua boca, para que você se recorde de falar de amor, quero vaga lumes fazendo morada nas suas pestanas para iluminar seu olhar de flor. Vem dona moça, o tempo é agora, a vida é lá fora e tudo fica sem graça sem sua risada gostosa, sem sua mistura de cor.







Trecho do texto Poema Daltônico
de Renata Fagundes












quarta-feira, 4 de abril de 2012

Não sei ser








A gente se auto define todo o tempo, eu poderia ser assim ou assado. Fazer melhor, querer mais, superação, aceleração, multidão, decisão e os dias se vão. As pessoas não param para olhar, para ouvir, para refletir, não prestam atenção no outro é tudo a tempo e a hora. Sentenciado de qualquer maneira. Pessoas são etiquetadas e colocadas em prateleiras em ordem alfabética pra facilitar o serviço. Muitos dizem - eu já nasci pronto. Eu não. Vivo nascendo todos os dias. Meus passos tem ritmo de bossa nova e ainda sou poesia.




Renata Fagundes






quinta-feira, 22 de março de 2012

Descrevendo a paz








O espelho tem desfocado minha imagem, vejo uma pluma branca pairando no ar sem conseguir alcançar o chão. Em dias de chuva sou cheiro de terra molhada, barro moldado por mãos infantis, como se tivesse recuperado a inocência perdida e reinventado travessuras. Talvez tenha alcançado um grau de leveza que transcende o físico - acho que virei matéria microscópica, impossível de se ver a olhos nus, devo estar perdida na via láctea, ou quem sabe apenas me descuidei da gravidade. O sol escaldante não consegue queimar minha pele, estou vestida de vento e minha alma assovia descalça.



Renata Fagundes










sexta-feira, 2 de março de 2012

Clareando pensamentos







Ela falava de sonhos sem medo de parecer ridícula. Gostava da leveza descompromissada de vez ou outra marcar encontro com seu livro favorito. Colecionava filmes água com açúcar sem se preocupar com o que achavam do seu intelecto. Enquanto todos buscavam o dourado do sol, ela comemorava o cheiro da chuva perfumando a casa. Afinal,era feita de barro, podia ser moldada de acordo com os dias e se o resultado não fosse o esperado, se deixava quebrar e se refazia. 

Redescobriu novos sabores nas palavras: tranquilidade, equilíbrio, alegria, palavras conhecidas que agora eram degustadas, lambuzadas, vividas. Descobriu com tristeza pessoas vazias. Não sabia se existia culpa, apenas identificou uma necessidade urgente de atenção, cuidado, tempo. Pois é, a gente precisa dedicar um pouco mais tempo pra um sorriso, um abraço, um conte comigo. Pessoas ficam amargas porque ficam por muito tempo sem experimentar o doce sabor da palavra gentileza. Só consegue ser gentil quem não espera nada em troca.

Estava agora, em um de seus passeios noturnos a conversar com o vento. E quando a noite era só breu, enfeitava os cabelos com estrelas para clarear os pensamentos.



Renata Fagundes









terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Insônia









...fechou a janela com rapidez como se o vento que passava por ela, fosse capaz de espalhar seus segredos pela noite. Se enrolou em frios lençóis - borboleta querendo virar casulo. Sorriu diante de tanta contradição. O frio da noite se despediu ao ser abraçada por seus pecados - ela não se arrependia...



Trecho do texto: Quando tudo cala

Renata Fagundes







sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

No passo sem compasso








Apaguei as luzes, calei as vozes, me guardei por fora para dar voz ao que estava dentro. Sentimentos desencontrados esmurravam as portas do coração. Pensei em organizá-los em uma fila, um de cada vez por favor. Tá certo que as vezes precisamos bagunçar para encontrar o lugar das coisas. Aprendi que nada é tão grande como a gente vê. Ainda bem! Decidi descomplicar o simples, simplificar os dias. A gente planeja tanto, aí vem o inesperado fazendo festa, rindo dos nossos projetos megalomaníacos, nos ensinar que muita coisa depende de nós, mas que a vida é muito mais que um bloco de notas. Vem nos mostrar que não existe receita pronta, palavra certa, escolhas erradas, a vida se apresenta cada dia com uma nova roupa e cabe a nós tirá-la para dançar ou ficarmos sentados esperando a coragem chegar.
Reaprendi a construir caminhos sem me preocupar com a chegada, apenas com cada passo da caminhada.



Renata Fagundes










segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Saudade do amor que tenho









A chuva batia na janela do ônibus, parecendo pedir licença para entrar. Até que não seria má ideia se deixar lavar por fora, afinal, a chuva havia começado de dentro. Se descobriu feita de chegadas e partidas e nesse espaço de tempo entre uma e outra, morria e ressuscitava em sorrisos e lágrimas. Alegria e saudade morando na mesma casa. Era fácil ser feliz ali. A chuva tentava chamar sua atenção. Se concentrou na música que vinha do fone de ouvido " She will be loved" sabia que era amada, sorriu e cantarolou "My heart is full and my door's always open". Se a porta estava sempre aberta, por que era tão difícil deixar as pessoas irem? Por que era tão difícil sair simplesmente? Não sabia deixar um beijo de até breve e virar as costas. Até breve não existe. "Look for the girl with the broken smile...Ask her if she wants to stay a while". Seu sorriso não havia se quebrado, apenas se perdeu no caminho de volta, talvez esteja no meio da bagagem.


Renata Fagundes.



Trechos da música: She Will Be Loved - Maroon 5 








segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Trilha sonora







Passou por dias de puro heavy metal. Ainda podia sentir o som da bateria mudando seu ritmo cardíaco e a vibração das cordas das guitarras acelerando seus vasos sanguíneos. Não era essa a trilha sonora que havia escolhido para sua vida. Gostava de blues como fundo musical. Suavidade não faz mal a ninguém, pensou. Girou o botão dos dias, desligou-se do barulho interno. Afinal, podia ser o que bem quisesse e nesse momento, era bailarina descalça, senhora das horas. Fechou os olhos, abriu os braços e descobriu que sabia dançar.


Renata Fagundes








terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cedo demais








Eu queria ter o poder de segurar o tempo naquele momento único em que seu olhar encontrou o meu, dividindo uma travessura que só a gente entendia. Repeti em minha playlist mental a música da sua gargalhada que iluminava a casa e fazia até o vento dançar. Mas o vento se encantou com você, te convidou a fazer passos no ar. Fez de você papel colorido enfeitando o céu, bola de sabão, aí você resolveu criar asas, se desgrudar do chão.

Nas noites em que me sinto sozinha, ouço seus passos, sinto sua mão, cheirinho de abraço apertado que vem acompanhando minha oração. Sei que você sabia o quanto te amava (te amo), principalmente nas muitas vezes em que eu não dizia, aliás, era o que eu não dizia que você mais entendia. E quando a saudade, essa malvada vem em minha porta fazer canturia, abafo seu som fechando os olhos, abrindo os braços e cantando nossa música favorita. 

Hoje não estou sabendo falar de dor, porque eu sei que tristeza endurece a gente e esfarela o amor e onde você estiver estará fazendo caretas para o meu mau humor. Por isso vou tentando seguir os dias vestida com sua alegria. Me empresta seus pés de anjo pra eu caminhar em paz? Prometo que devolvo qualquer dia.



Renata Fagundes



"...Vai com os anjos
Vai em paz
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez..."

Os bons morrem jovens
Legião Urbana





Para minha amiga Van Oliveira: Eu queria estar aí pra te abraçar bem demorado, fazer uma panela de brigadeiro pra gente comer com o dedo e falar da vida...da vida amiga...da vida.












segunda-feira, 28 de novembro de 2011

" Eu apenas queria que você soubesse que aquela alegria ainda está comigo..e que a minha ternura não ficou na estrada, não ficou no tempo presa na poeira..." Gonzaguinha








No meio da nossa bagunça diária, dos nossos diálogos malucos e idéias geniais, minha filha em meio a uma gargalhada diz - "mãe você não cresceu"

Se ser gente grande é abafar o riso em público, é deixar de falar o que pensa por não ser o momento adequado, é deixar de brigar pelo último pedaço, lamento mas eu não cresci. Gente grande é muito limitada. Ser feliz por nada, aos olhos deles é coisa de gente boba. Eu sobrevivo de bobagens. Não cresci realmente, acho que minhas idéias é que ficaram altas, minha aquarela mais colorida e meus dedos ainda mais lambuzados de sonhos.



Renata Fagundes







segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Será por que é tão difícil?








Até quando os serás vão nos afastar dos por quês? Até onde podemos chegar de pés atados a respostas imaginadas? Diálogos secretos sussurrados por nossa mente. São filhos que não se relacionam com os pais, irmãos brigados há anos, marido e esposa infelizes, amigos afastados, corações quebrados por medo de enfrentarem suas temidas respostas. Por que você foi tão cruel? Por que me abandonou? Por que me disse coisas tão duras? Os "serás"  se agigantam dentro de nós - Será que ele me ouviria? Será que meu pai me acha um fracassado? Será que estou sendo traída? Será que a culpa foi minha? Os serás que criamos nos paralisa, nos afastando dos por quês, nos impem de dialogar com honestidade, de virarmos a página e seguirmos adiante.  Acredito que pessoas são feitas do que recebem. Talvez seja por isso que a maior parte delas sejam tão frias. Palavras não ditas, esfriam na prateleira do tempo. Em compensação, existem outras tantas que reverteram o processo, que souberam filtrar exemplos a não serem seguidos, que insistiram nos por quês e se salvaram. A escolha será sempre nossa. Seremos uma casa mau assombrada repleta de fantasmas disfarçados de deduções frustrantes ou abriremos nossas portas e janelas para o sol espantar aquele velho silêncio mofado?
Será que não está na hora de fazer as pazes com seus por quês? 

Quando esse dia chegar, as chaves da interrogação não servirão na sua porta, pois elas só sabiam trancar o que hoje está liberto.



Renata Fagundes











quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Quem era ela?








O que estaria por trás daquele sorriso? Tristeza camuflada? Vingança? Frieza? Talvez fosse apenas felicidade, simples e óbvia. Mas quem disse que ela era óbvia? Se nem Freud conseguiu dizer com exatidão, apenas revelou que era um continente obscuro. Como ela, que nada entendia de comportamento humano saberia indicar a saída do labirinto? Era como desvendar o sorriso de Monalisa.
Quantas habitavam sua mente, seus quereres e qual predominava?
Descobriu que as pessoas não mudam, ela não mudou. Continuava ciumenta, teimosa, encrenqueira e sabia ser doce, contar histórias, inventar personagens, mudar as lentes da realidade em busca do cenário do sonho.
Sabia quem era, mulher, mãe, amiga, amante, cigana e outras tantas. Sentia saudade do cheiro da verdade, daqueles que dizem o que pensam, mas principalmente daqueles que não fazem a menor idéia para onde estão indo, por não possuírem a arrogância dos que sabem tudo. Preferiu deixar suas gavetas internas bagunçadas, era assim que se achava.
Sentia as pinceladas do vento no rosto e gostava do arco-íris feito de riso. Ela era a pressa encolhida no meio da timidez ou a garra que a segurava na loucura. Era o passaporte rápido pro inferno, com direito a serenata de anjos de vez em quando. Todos os medos não cabiam na proporção exata, eram eles que a cobriam de luz e as vezes de escuridão.
Além de mulher, ela era o presente de um verão perfeito, o preto e branco ocasional do inverno e a presença inoportuna da primavera no meio de um outono esvoaçante. 
Sim, ela preferia a incerteza dos amores amassados na gaveta, do que a perfeição traiçoeira de um amor alinhado e démodé. Ela almejava as nuvens sem se importar com a indisposição da chuva, porque além de secar-se sob o sol ela pendurava todas as perguntas na cara do vento.



Texto em parceria com a amiga  Ju Fuzetto





Blog: Um lugar ao sol, perto do vento








quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sem sentido









Hoje to me sentindo ausente. Não quero esparramar verdades, feito bola de gude e esperar que as pessoas caiam. Também não encontro nada racional aqui dentro. Tentar decifrar nossos próprios enigmas é virar esfinge e devorar a própria criatividade e bom humor. Se sou avessa a perguntas, a troco de que vou me questionar? Não tenho medo das respostas, tenho preguiça de diálogo - monólogo - interior. Me encontro perdida em um mundo além das minhas janelas, Alice pós moderna. Cansei de brigar com meus pés que insistem em não permanecerem no chão. Acho que virei pipa, bola de sabão, nuvem de algodão.


Renata Fagundes








terça-feira, 18 de outubro de 2011

(In)conclusões?








Ela sentia tanta culpa por não se sentir culpada de pensar daquela forma. Logo ela, tão ética, sensata, racional. Estava cansada de ponderação, de se enganar falando em proteger as pessoas quando na verdade estava se auto protegendo de discussões desnecessárias e que obviamente não levariam a lugar algum. Queria largar o emprego, mudar para o Alasca, ficar amiga dos pinguins. Será que exista pinguins no Alasca? Queria comprar aquele perfume carérrimo, estudar alemão, ficar uma semana dentro de um quarto com o homem da sua vida, invadir a festa alheia, invadir a privacidade alheia, invadir a mente alheia.

Precisava sair dos seus limites, dos seus muros. Queria se tornar uma sem teto, sem tantos escrúpulos, sem noção. O mundo era tão grande e seu quintal tão pequeno, era um parque de diversões perto de um jogo de dominó - detestava dominó. Era preciso expandir, alargar, ventilar, desbravar, desconsertar, despentear. Quanto tempo tudo certo, quanto tempo sem deslizes descobertos, quanto tempo se contendo, se escondendo, se medindo, avaliando, minimizando. A vida era curta demais para arrependimentos tardios. Precisava recuperar o brilho. Descobrir o segredo do sorriso de Monalisa. A arte de dizer coisas sem revelar o essencial. Precisava ser salva.



Parte do texto: Revelações Incompletas

De: Renata Fagundes